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Ex-chefe de regulação da saúde em MS é acusado de “trancar” atendimento para forçar prefeituras a aderirem a editora investigada

Operação Gutenberg aponta uso da Central Estadual de Regulação como balcão de negócios em esquema que desviou R$ 27 milhões em livros

Imagem Ilustrativa - Foto: IA
Imagem Ilustrativa – Foto: IA

Interceptações da Operação Gutenberg revelam que o ex-coordenador estadual de Regulação Assistencial da saúde em Mato Grosso do Sul, Ed Carlo Britto Burgatt, preso no dia 7 de julho, utilizava seu poder sobre o fluxo de exames, cirurgias e leitos para pressionar prefeituras a contratar a Editora Avante, apontada como empresa de fachada ligada ao clã Jafar. Segundo o Gaeco, a estrutura da saúde pública foi transformada em verdadeiro “balcão de negócios”.

Em conversa monitorada, Ed Carlo e o advogado Gabriel Taquino discutem dificuldades para fechar contrato em Nova Alvorada do Sul. Diante da resistência, o então chefe da regulação ameaça “trancar” o atendimento: diz que vai ligar para o prefeito e dispara: “Se não for pela gente, ninguém ganha”. Em seguida, reforça: “Eu tranco tudo aqui e não ajudo eles em nada. Saúde zero”. Para os investigadores, as mensagens mostram troca de favores e uso criminoso da regulação para favorecer a Avante.

A investigação aponta que Ed Carlo recebia valores da editora por meio de transferências feitas por Rhayane Souza Fanaia, formalmente ligada à empresa, mas tida como “peoa” do esquema. A filha do ex-chefe, Jéssyca Burgatt, também aparece na trama: quebras de sigilo bancário mostram que ela recebeu duas transferências de R$ 52 mil em agosto de 2022, enquanto Ed Carlo recebeu R$ 101 mil entre fevereiro e março de 2023. Nenhuma das empresas em nome de Jéssyca teria relação com atividades editoriais. Para o Gaeco, os pagamentos vindos de empresa “comprovadamente fraudadora” de licitações colocam pai e filha como beneficiários diretos do esquema.

Em nota, o advogado Mário Teixeira, que representa Ed Carlo, afirmou que “qualquer afirmação nesse momento é prematura”, alegando falta de elementos concretos e pedindo respeito ao devido processo legal. A defesa de Jéssyca, por meio do advogado Perceu Jorge, sustenta que os valores recebidos têm origem lícita e nega envolvimento de empresas na operação.

O Gaeco descreve que o dinheiro pago pelas prefeituras à Editora Avante era sacado por Rhayane e redistribuído entre os integrantes do grupo, sob comando do clã Jafar. Após a M0rte por covid em 2021 do patriarca Mirched Jafar, a viúva Rossana Paroschi Jafar e os filhos teriam aberto novos CNPJs para manter o esquema. A Gráfica Alvorada, ligada à família, já aparece em investigações de lavagem de dinheiro na Operação Lama Asfáltica. Quebras de sigilo fiscal mostram diversas transferências da Avante para contas pessoais da família.

Para o Gaeco, Rossana seria a “cabeça” do esquema e da própria Avante. Durante os mandados, ela foi flagrada com munições intactas, passando também a responder por posse irregular de arma; na ação, foram apreendidos mais de R$ 200 mil em espécie e R$ 3 milhões em cheques.

Operação Gutenberg cumpriu 16 mandados de prisão e 43 de busca e apreensão para desarticular o grupo, acusado de fraudar licitações, praticar corrupção ativa e passiva, lavagem de capitais e outros crimes. A organização atuava a partir da Central Estadual de Regulação (Core), em Campo Grande, mas espalhava seu alcance para diversas cidades do Estado, usando o acesso à saúde como moeda de troca – um retrato duro de como estruturas que deveriam proteger os mais vulneráveis podem ser capturadas por esquemas de corrupção, enquanto o governo federal segue multiplicando gastos e burocracias sem enfrentar de frente esse tipo de prática.