Escuta reúne mulheres negras que cobram educação efetiva, saúde mental, combate ao racismo e mais presença em espaços de poder

No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado neste sábado (25), a candidata a deputada federal Viviane Luiza promoveu uma roda de escuta com mulheres negras para mapear problemas concretos em áreas como educação, saúde, trabalho e renda, direitos e proteção, cultura, identidade e beleza. A tônica do encontro foi clara: os desafios são estruturais, atravessam vários setores e exigem políticas permanentes, e não apenas discursos de ocasião.
Acesso e permanência na educação
A socióloga Nayhara Almeida de Sousa destacou que o debate não pode se limitar ao acesso à universidade: é preciso garantir a permanência dos estudantes negros. Segundo ela, “o gargalo da permanência no ensino superior é um problema que precisamos enfrentar”. Nayhara citou dados mostrando que 71% dos municípios fazem pouco para implementar a Lei 10.639, que obriga o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas – mais um exemplo de lei que o Estado brasileiro aprova, mas não cumpre.
Saúde mental e racismo
A psicóloga Márcia Maria da Costa chamou atenção para a saúde mental das mulheres negras, afirmando que “o racismo adoece, gera estresse, ansiedade e depressão” e provoca um estado constante de hipervigilância. Ela relatou que “vários episódios de racismo” abalam autoestima e identidade e criticou o fato de o SUS não considerar o recorte racial nos atendimentos. Márcia defendeu mais cultura, lazer, feiras e cinema em bairros periféricos e foi direta: sem educação antirracista, é impossível assegurar bem-estar psicológico das crianças.
Empreendedorismo e autonomia
A empreendedora Marilene Jarcem, dona de loja de roupas, relatou que o empreendedorismo surgiu da necessidade e é ainda mais difícil para a mulher negra. Ela contou situações em que clientes perguntam quem é o dono do negócio, como se ela não pudesse ser a proprietária. “Mas isso não me abate. Nós temos que nos impor. Não podemos abaixar a cabeça”, afirmou, evidenciando a barreira cultural que ainda impede reconhecimento do trabalho dessas mulheres.
Combate ao racismo e acesso à Justiça
No eixo de direitos, a advogada e coordenadora do Cras do Jardim Canguru, Márcia da Silva, lembrou que o racismo é crime “inafiançável e imprescritível” e reforçou a necessidade de levar as denúncias às delegacias. Ela destacou que as mulheres negras representam 28% da população brasileira e questionou: “E onde estão elas?”. Para Márcia, é fundamental eleger representantes que realmente defendam essa parcela da sociedade, e não apenas usem o tema de maneira ideológica.
Proteção de crianças e adolescentes
A conselheira tutelar Sandra Souza relatou diversas violações de direitos envolvendo crianças e adolescentes negras e apontou a falta de políticas específicas. Segundo ela, há cerca de 33 mil crianças acolhidas no Brasil, das quais 70% são pardas ou pretas e não são adotadas – um dado que escancara o preconceito silencioso que ainda marca o sistema de acolhimento.
Respeito, identidade e cotas
A presidente do SouAfro de Mato Grosso do Sul, Ivani Fermiano, falou sobre cultura, beleza e identidade. “Não é pedir, é exigir ser respeitada. Temos que falar das cotas. Não é um favor. Não entramos como pedintes, é um direito nosso”, disse. Professora, Ivani afirmou que não tolera “piadas” nem insinuações racistas em sala de aula: “Não admito racismo em sala de aula. É crime e alguém vai responder por isso.”
MS Sem Racismo e compromisso de Viviane
Viviane Luiza relembrou o MS Sem Racismo, política construída quando foi secretária de Estado da Cidadania, destacando que o programa nasceu da escuta de comunidades e territórios. “Enquanto houver uma mulher negra com direito violado, pode ter certeza de que terá a minha voz”, afirmou. Ela defendeu mais mulheres negras em espaços de poder e disse que, se eleita, uma de suas lutas será garantir orçamento para programas como o Protege e o próprio MS Sem Racismo, ampliando essas ações e fazendo de Mato Grosso do Sul um modelo para o país.
As participantes ainda citaram como prioridades o enfrentamento à intolerância religiosa contra praticantes de religiões de matriz africana, o fortalecimento das políticas de combate à violência contra mulheres e meninas – com melhor atendimento nas delegacias – e a ampliação da educação antirracista desde a infância, com revisão de documentos e diretrizes escolares. Segundo Viviane, tudo o que foi relatado na reunião servirá de base para a formulação de propostas que ela pretende levar ao debate nacional, num momento em que o discurso identitário da esquerda muitas vezes não se traduz em políticas eficientes para quem mais precisa.






Créditos da reportagem ao Veja Folha | MS





