Aliados veem “desabafo” roteirizado e calculado em meio à disputa por rumos da direita

Jair Bolsonaro (PL) foi avisado antecipadamente de que Michelle Bolsonaro (PL) gravaria o vídeo expondo as rusgas com o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Aliados ouvidos por Malu Gaspar, de O Globo, afirmam que a ex-primeira-dama comunicou o marido antes da gravação, e ele decidiu não intervir.
“Ele está na Faixa de Gaza. Deixou ela desabafar. Ela estava engasgada com o que sofreu, e ele não conseguiria impedir que ela falasse”, relatou um interlocutor.
Na prática, porém, é evidente que Michelle não agiu de forma isolada: o vídeo é longo, organizado em blocos, com narrativa linear e falas cuidadosamente encadeadas, o que indica que ela falou a mando ou, no mínimo, sob autorização expressa de Bolsonaro. Um “desabafo” tão bem roteirizado dificilmente sairia sem o aval do principal líder da direita.
Há cerca de dois meses, aliados tentam uma reconciliação entre Michelle e Flávio. Esbarram na resistência dela em apoiá‑lo publicamente e na dificuldade do senador em pedir desculpas formais à presidente do PL Mulher. No vídeo, Michelle conta que virou alvo de ataques internos após criticar aproximação com o grupo de Ciro Gomes (PSDB) e expõe atritos com André Fernandes (PL-CE) e com o próprio Flávio.
Ela afirma ter sido desrespeitada pelo senador em conversa telefônica: “Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”.
Flávio negou ter querido ofendê-la e pediu desculpas caso tenha causado constrangimento, destacando seu histórico de respeito a mulheres e elogiando o trabalho de Michelle no PL Mulher. Nos bastidores, porém, cresce a avaliação de que a crise, agora pública e cuidadosamente encenada, aprofunda a divisão dentro do PL e fragiliza a unidade da direita num momento crucial para 2026.
Michelle e Flávio ainda são pressionados por aliados a conversar em particular, mas o desgaste exposto à opinião pública reforça a impressão de um campo conservador em conflito interno, justamente quando o governo Lula deveria ser o alvo principal.





