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Deputadas rejeitam Erika Hilton na Comissão da Mulher e cobram respeito a mulheres biológicas

Parlamentares afirmam que presidência deve ser ocupada por quem vive na pele gestação, menstruação e violência doméstica

Erika Hilton - Imagem: Karime Xavier - 3.dez.19/Folhapress
Erika Hilton – Imagem: Karime Xavier – 3.dez.19/Folhapress

A eleição da deputada transgênero Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, nesta quarta-feira (11), provocou forte reação de parlamentares mulheres. Erika foi indicada pelo próprio PSOL para substituir Célia Xakriabá (PSOL-MG), e a escolha reacendeu o debate sobre representação feminina e identidade de gênero dentro do Congresso.

A deputada Greyce Elias (Avante-MG), integrante titular do colegiado, enfatizou que a contestação não é sobre exclusão, mas sobre preservar um espaço conquistado pelas mulheres brasileiras.

– “Como titular da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara, reafirmo: esse espaço existe para defender as mulheres brasileiras. A comissão nasceu para enfrentar problemas reais que atingem milhões de mulheres no nosso país: violência doméstica, feminicídio, saúde, desigualdade salarial e proteção à maternidade. Foram anos de luta para que as mulheres tivessem voz dentro do Parlamento. Por isso, pedimos respeito a esse espaço que foi conquistado para representar quem vive esses desafios na vida real. Não é sobre excluir ninguém. É sobre garantir que a voz das mulheres seja respeitada e preservada” – ressaltou.

Para Rosângela Moro (União Brasil-PR), a presidência da comissão deveria ser exercida por uma mulher biológica, justamente porque trata de temas diretamente ligados à realidade do corpo feminino.

– “Não se trata de discutir a pessoa. Se trata de discutir para que serve a Comissão das Mulheres. Muitos dos assuntos que tratamos são biologicamente de mulheres, como gestação, violência obstétrica, câncer de colo de útero e endometriose” – defendeu.

A deputada Delegada Ione (Avante-MG) criticou o que considera um desequilíbrio de pautas, em que mulheres acabam ficando em segundo plano.

– “Para lembrar das transexuais, estão esquecendo das mulheres. Para incluir um segmento da sociedade, estão excluindo outro (…) qual a legitimidade da deputada Erika Hilton para debater sobre menstruar? Com que autoridade poderá presidir debates sobre dificuldades de ser mãe no Brasil?” – questionou.

Na mesma linha, a deputada estadual Mara Lima (Republicanos-PR) disse que a presidência da comissão deve estar nas mãos de alguém que vivencia as questões femininas no dia a dia.

– “Quem assume uma comissão dessa importância precisa ter conhecimento de causa. E isso tem que ser uma mulher que vive essas situações, como gravidez, ciclo menstrual e violência doméstica (…) a mulher luta tanto para conquistar espaço e acaba perdendo para um homem que biologicamente é homem” – destacou.

Clarissa Tercio (Progressistas-PE) afirmou que seguirá lutando para que os cargos sejam ocupados por mulheres biológicas. Já a deputada estadual Chris Tonietto (PL-RJ) protestou de forma simbólica: publicou um vídeo nas redes sociais reagindo em silêncio a uma postagem sobre a possível eleição de Erika, alegando orientação de seu advogado.

Erika Hilton acabou eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher com 11 votos, enquanto 10 deputadas optaram por votar em branco. A vice-presidência ficará com Laura Carneiro (PSD-RJ). A comissão é um dos principais espaços institucionais de debate das pautas femininas na Câmara, em um Parlamento ainda predominantemente masculino: são apenas 93 deputadas federais e duas senadoras, o que representa cerca de 18% do total de membros.